Gledhelm
17º de Aprilo do ano 4016 do Reinado
17º de Aprilo do ano 4016 do Reinado
De todos os adjetivos que eu poderia pensar para descrever esse dia das minhas férias, o mais adequado é «incomum». Até ontem pensava que passaria meus dias em Gledhelm aproveitando o clima frio das montanhas, o aconchego da mansão do Max, tocando no Tijolaço, bebendo no Tijolaço e fazendo algumas visitas ocasionais ao Clube Branco (afinal ninguém é de prata), mas parece que o destino possuía outros planos.
Tudo começou ontem: ao terminar de tocar Mia Vojo no bar do Jhon resolvi me sentar com o meu irmão e degustar um pouco daquela cerveja maravilhosa, Amargura. Inclusive, de alguma forma o Jhon me convenceu a aceitar um barril dela como pagamento… aquele sujeitinho possui uma lábia incrível. Talvez eu tenha feito um mau negócio, todavia a cerveja é ótima, de modo que penso poder conviver com isso.
Bem... no momento em que me sentei junto ao Max ele comentou que o Jhon queria conversar conosco. Pressenti que passaria por uma situação, no mínimo, desconfortável. Enfim, bebemos e conversamos trivialidades até o Jhon se juntar a nós, ele contou que havia recebido uma carta da Academia pedindo ajuda para encontrar alguém que havia sumido, tendo sido visto pela última vez aqui nas redondezas de Gledhelm. Ao que tudo indica a carta indicava que ele iria precisar de ajuda, coisa que ele veio procurar em nós.
Max e eu pedimos mais detalhes, mas o Jhon não possuía mais informações (pelo menos foi isso o que ele respondeu), o que me fez ficar inclinado a recusar... contudo, se academia estava envolvida então algo de realmente interessante deveria estar acontecendo (gostaria muito de falar com a S. à respeito). Ao final, nós acabamos por aceitar o pedido de ajuda do Jhon.
Fomos para a casa do Max dormir, assim como nos preparar para a viagem, comentei que pensava que o Jhon estava escondendo algo e, pelo visto, meu irmão partilhava da minha desconfiança.
Uma coisa com a qual eu provavelmente eu nunca irei me acostumar é com a pomposidade do Max, a mansão dele, por exemplo, é enorme, cheia de obras de arte que ele provavelmente não entende e possui uma biblioteca cheia de livros que ele provavelmente não leu… E as camas… Ah, as camas! Como são macias e confortáveis, sempre me fazem dormir bem! Ou melhor… quase sempre…
Durante a noite tive um pesadelo:
Encontrava-me em um teatro onde se desenrolava uma batalha campal, algumas das pessoas utilizavam uniformes similares aos de policiais, mas eu não conseguia identificá-los. O teatro possuía paredes de um mármore azul deslumbrante, com desenhos de figuras humanas em alto relevo, tão perfeitas que pareciam se mover na parede.
Em um dos camarotes havia uma estátua com aspecto humano segurando um escudo, o escudo por sua vez possuía um brasão com um B e um lobo mordendo a própria cauda. Embaixo da estátua jazia um corpo dilacerado, em condições tão terríveis que eu não saberia identificar nem mesmo se era ou não humano.
Atrás do camarote, ao invés de uma porta, havia algo similar a entrada de uma caverna, tentei caminhar em direção a ela e acordei suando frio e tremendo, definitivamente esse não foi um sonho comum… assim como eu definitivamente não conseguiria voltar a dormir…
Fui em direção ao quarto do Max para ver se ele estava acordado e conversar… mas sobre o que eu falaria? Se eu parecesse preocupado por causa de um pesadelo ele iria achar que eu perdi o juízo. Deixei a ideia de lado e me dirigi à biblioteca, talvez lá eu conseguisse encontrar relacionado aos símbolos do meu sonho…
Fui em direção ao quarto do Max para ver se ele estava acordado e conversar… mas sobre o que eu falaria? Se eu parecesse preocupado por causa de um pesadelo ele iria achar que eu perdi o juízo. Deixei a ideia de lado e me dirigi à biblioteca, talvez lá eu conseguisse encontrar relacionado aos símbolos do meu sonho…
Após alguma pesquisa, consegui identificar que o teatro do meu sonho era nada menos que o próprio Teatro dos Sonhos de Erath… como eu não consegui reconhecer o lugar antes? O susto deve ter me deixado mais lento, ou talvez a Amargura… vai saber. Tenho que fazer uma visita ao Teatro o mais rápido possível… ou me manter o mais longe dele possível, é difícil pensar quando se acorda ainda meio bêbado.
Já sobre o Brasão eu não tive muito sucesso, ele deve estar relacionado à genealogia, mas não encontrei nenhuma menção a aguma família que possuísse um brasão similar. Será que a Ela teria alguma ideia do significado daquilo?
Em algum momento o Max acordou e me encontrou na biblioteca, disse para ele que tive um pesadelo e não consegui mais voltar a dormir, então resolvi estudar. Aproveitei para perguntar se ele sabia alguma coisa sobre o brasão, mas ele não tinha nenhuma ideia de qual família se tratava. Após isso tomamos café da manhã e fomos encontrar o Jhon no Tijolaço, de lá ele nos levou até o Clube Branco…
A expressão no rosto do meu irmão foi impagável, daria tudo para ter um registro daquele momento, olhando para o Clube Branco como se ele mesmo pudesse ficar sujo com o local… ele realmente precisa aprender a viver… Infelizmente o Clube estava «fechado», pelo menos para alguns tipos de negoócios, ou o Max teria dado o mais engraçado dos xiliques.
O Jhon bateu e, para a minha surpresa, a Sheila abriu a porta… em geral prefiro a Chastity, mas a Sheila não é nada ruim… Ele me olhou de cima a baixo e perguntou: «Não está um pouco cedo pra você estar aqui?» ao que eu respondi «The sooner the better». O Jhon impediu que a conversa continuasse dizendo que nós estávamos ali para um trabalho da Academia e mostrou uma carta à Sheila, que entrou para confirmar algo e voltou nos mandando entrar.
Ao invés de irmos até o Salão fomos para uma espécie de escritório, o que foi uma situação completamente atípica e não muito prazerosa pra mim. No escritório, Mademoiselle Rosalinda nos aguardava junto com mais três pessoas…
Eles nos foram apresentadas como Karl Kaufmann, sujeitinho esquisito do qual pouco me recordo no momento; Sr. Kim White, curador do Museu Ardaton, o qual, devo dizer, é precedido por sua fama nas belas artes; e uma outra funcionária do Museu, a pessoa mais esquisita que eu poderia conhecer na vida: Alice, a criança de 30 anos, hiperativa, vestida de arco-íris e com a voz mais estridente que um flautim desafinado. Tenho dor de cabeça só de lembrar dos «uiiiiiiiiiiiii»'s …
Nos foi dito que os três haviam sido enviados pela Academia para uma missão e agora precisavam de ajuda, houve um certo desconforto até o Jhon conseguir convencer o Sr. White de que nós haviamos sido enviados para ajudar… enquanto isso a Alice ficava pulando de um lado para o outro da sala, me fazendo perceber que eu estava tendo uma forte ressaca de Amargura…
Quando o Jhon mostrou a carta da Academia e o Sr. White finalmente se convenceu de que estávamos ali para ajudar, o Max e eu pedimos mais detalhes da missão. Nos contaram que a pessoa desparecida era ninguém menos que o Mestre Pio Argo, também nos contaram que o Sr. Arno York, membro da Intendência de Assuntos Especiais, havia sido encontrado por eles em um estado lastimável e que essa missão era perigosa… Nesse momento pensei em desistir, não fazia ideia de que isso poderia ser perigoso, mas a curiosidade só aumentou ao saber que o Argo estava envolvido. Tenho certeza que pensamentos similares ocorreram ao meu irmão.
Tentamos então decidir por onde começar, porém ninguém tinha nenhuma pista, ou melhor, a única «pista» que nós tínhamos era um desenho de um lobo decaptado que a Alice «viu» quando «entrou na cabeça do Arno». Segundo ela, Mademoiselle Rosalinda havia dito que isso poderia estar relacionado à uma mina abandonada conhecida como a mina do lobo. Todos os outros haviam concordado em começar por lá. Eu estava novamente prestes a desistir daquela loucura quando lembrei do meu sonho e do brasão do lobo… poderia ser que aquela mulher desorientada realmente estivesse falando a verdade? Uma enviada da Academia com conhecimento de Pouco provável, todavia acabei por dar o braço a torcer, eu tinha que descobrir o que estava acontecendo ali.
Seguimos na direção sul, onde ficam as minas da região, o Jhon nos guiou até a mina do lobo, abandonada há mais de 100 anos, ninguém sabe exatamente o porquê. Como seria de se esperar de uma mina abandonada, ela estava fechada, sem nenhuma possibilidade de alguém ter entrado por ali.
Alguns de nós ficaram examinando a entrada da mina, o Karl de repente começou a reclamar de um cheiro estranho que ninguém mais sentia, já eu me perguntava se essa mina teria algo a ver com a caverna do meu sonho, enquanto a Alice saiu pulando (sério, quem sai pulando no alto de uma montanha?) até que, do nada, ela parou em um ponto próximo, encarou a montanha, começou a brincar com as pedras e disse que tinha algo de estranho ali…
Todos a ignoraram, afinal era a Alice… no entanto, resolvi chamar a atenção deles, por mais esquisita que ela fosse, ela já havia nos levado até ali mesmo… Comecei a questionar se eu mesmo não estava perdendo a noção da realidade…
Acontece que as pedras «engraçadas» que ela estava encarando tinham um formato regular, como se fossem uma construção ao invés de um monte de pedras de montanha qualquer. O Sr. White tentou mover algumas pedras, mas nada aconteceu, o Max por sua vez tentou ver se havia algo estranho ali, mas não encontrou nada.
Cheguei mais perto para examinar as pedras daquele local, acabei notando que algumas das pedras (5 para ser mais preciso) eram demasiado diferentes em relação às demais, como se não pertencessem àquela localidade. Contei isso ao grupo que acabou por concordar.
A partir disso começou uma confusão, a Alice pulou para alcançar a pedra mais alta, bateu nela e nada aconteceu. O Sr. White tentou empurrar essa mesma pedra, nada novamente. O retardado do Jhon tentou enfiar uma faca na fresta de uma delas, mas tudo que ele conseguiu foi quebrar a ponta da faca. Finalmente o Max passou a mão em uma das pedras e percebeu que ela havia ficado quente, então a Alice tentou fazer a mesma coisa e a primeira pedra esfriou… Seguiram-se alguma tentativas até que o Max passou a mão na pedra (acredito que era a mais baixa) e o Sr. White passou a mão na mais alta, que caiu na cabeça dele… Deve ter doído… Então ele enfiou a mão dentro do buraco (que coisa inteligente a se fazer), descobrindo alguma espécie de mecanismo que ele puxou, fazendo com que as «pedras geométricas» se abrissem, revelando uma passagem.
O Jhon acendeu um lampião; entramos no que parecia ser uma câmara esculpida na rocha, não havia nada no cômodo além de uma mesa de madeira, cheguei mais perto para examiná-la e notei algumas marcas de mão na poeira, relativamente recentes. Notei também um rastro de pegadas na poeira que seguia até a única passagem na câmara. Avisei ao grupo e nos preparamos para seguir pela passagem.
O Jhon com o lampião e o Sr. White foram na frente, a Alice tentou ir na frente junto com o Jhon, mas eu a segurei de pronto tanto para impedir que ela fizesse com que o lampião caísse, quanto para que ela não acabasse causando algum outro acidente, afinal não sabíamos em que tipo de lugar estávamos nos metendo nem que tipos de armadilhas nos aguardavam.
Céus! Ela não parava de saltitar nunca! E eu que pensava que ela não poderia tornar-se mais irritante. O Max foi atrás de nós…
Céus! Ela não parava de saltitar nunca! E eu que pensava que ela não poderia tornar-se mais irritante. O Max foi atrás de nós…
Aproveitei que não havia muito o que fazer para perguntar a Alice se ela realmente acreditava naquela história do desenho, ela iniciou uma torrente de palavras ininteligíveis sobre como os desenhos dela, inspirados pelos sonhos, se tornavam reais ou algo do tipo, sobre habilidades especiais em geral e sobre a «mentora» dela… Isso me fez começar a acreditar que ela seja, de alguma forma, «especial»… Definitivamente tenho que falar com
Fiquei tão absorto com a conversa que nem percebi quando o grupo parou em uma outra câmara, com duas (ou seriam três?) outras passagens. O Karl acabou notando que havia algum rastro seguindo para a passagem mais à esquerda (ou seria mais à direita?) e seguimos em direção a ela. O Sr. White nos avisou para tomar cuidado com alguns «fios» que ele havia notado na passagem.
A Alice soltou-se da minha mão e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, disparou passagem adentro gritando «Deixa eu ver! Deixa eu ver!» e acabou disparando uma armadilha que fez com que uma pedra caísse e machucasse sua perna… Não aconteceu nada de grave, mas pelo menos ela finalmente parou de saltitar, mesmo que só por um tempo.
A Alice soltou-se da minha mão e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, disparou passagem adentro gritando «Deixa eu ver! Deixa eu ver!» e acabou disparando uma armadilha que fez com que uma pedra caísse e machucasse sua perna… Não aconteceu nada de grave, mas pelo menos ela finalmente parou de saltitar, mesmo que só por um tempo.
Continuamos andando até que nos deparamos com uma grande porta de madeira com um símbolo: Um lobo mordendo a própria cauda… eu não percebi que havia ficado sem ação até que, do nada, o Max deu um curto grito de dor. De alguma forma ele machucou o joelho e foi ao chão, imediatamente o levantei e perguntei o que havia acontecido, ele respondeu que apenas havia tropeçado.
À nossa frente, o Sr. White estava começando a abrir a porta pressionando o símbolo do lobo, à luz do lampião conseguimos ver que havia algumas mesas, numa delas havia alguém sentado. Tão logo tivemos noção daquela figura ouvimos um grito: «Por favor, não feche essa porta!». Todos ficamos parados enquanto uma figura de aproximandamente 1,90m, envolta em uma capa, começou a correr em nossa direção.
O Sr. White barrou a passagem dela até perceber que se tratava justamente do Mestre Pio Argo. Dava para notar claramente que o pobre homem estava desesperado para sair daquele lugar… o Sr. White no entanto queria algumas respostas e perguntou a quanto tempo ele estava naquele lugar. Os «quinze minutos» nos deixaram estarrecidos.
Perguntei que lugar era aquele, ele respondeu que era um púlpito utilizado por uma antiga família lupina. Tentamos fazer mais algumas perguntas, mas ele estava realmente perturbardo tentando sair de lá o mais rápido o possível. Ele prometeu que nos contaria os detalhes no trem de volta a Athanel, mas que nós tínhamos que sair de lá o quanto antes.
Acabamos voltando para a cidade e, ao que parece, vou ter de terminar as minhas férias mais cedo. Meu irmão vai continuar aqui em Gledhelm por conta do trabalho dele, assim como o Jhon também vai permanecer aqui por conta do bar. Ou seja, eu sou o único dos três que vai voltar à capital junto com o Mestre Argo e o grupo do Sr. White. O Sr. York também vai permanecer aqui, sob os cuidados do Clube Branco até se recuperar.
São muitas questões em aberto, tenho certeza de que o Mestre Argo sabe o significado do brasão, além de ter muito mais informações sobre aquelas câmaras. Preciso dar um jeito de falar com ele a sós por alguns instantes... Também preciso falar com Ela sobre a Alice, bem como fazer alguma investigação sobre a vida do Sr. White e do Karl. Porém, acima de tudo, preciso entender qual a relação de tudo isso com o teatro de Erath…
No momento, porém, preciso dormir um pouco para curar essa ressaca. Será uma longa viagem de volta a Athanel… pelo menos tenho um barril de Amargura praticamente cheio para me fazer companhia.
C. Addison